terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Neto de Francisca - uma quase romance em Paranapiacaba

Entre pasta de dente, escova de cabelo e água morna, Amanda vagava em questões retóricas da sociedade em que se encontrava: Será que consigo me realizar profissionalmente antes dos 30? Comer carboidrato depois das seis da tarde engorda? Creme antissinais aos 25 resolve mesmo?

Sem obter resposta, a única saída era responder a mensagem de celular de sua amiga Roberta ( jornalista cinco anos mais nova que Amanda e mais neurótica que ela) e dizer que passaria na casa dela às 6h45 para irem a uma tal de trilha ecológica. Encontraria ainda Mariana, mestranda em língua alemã, e Juliana,estudante de química, sorridente, vizinha de Amanda e aspirante nas aulas de inglês.




fonte: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com/_Lq0Lib4krWI/S-mj-LjB99I/AAAAAAAAASA/7lZe1Bc21dg/s1600/4556392386_85f9ec6a78_large.jpg&




Tubo de repelente, garrafa de água, barrinhas de cereal e óculos de sol na bolsa, a garota de estatura média- cabelos escuros (antes loiros) o que mostra as indecisões da moradora da Vila Prudente- estava pronta pro compromisso. Entretanto, faltava-lhe algo.

Pensava em Raul. Como aquele judeu de olhos graúdos, barba rala e mãos pequenas poderia ser tão insensível, ao contrário do que parecia ser naquelas noites no quarto de motel?

Para a infelicidade dela, ele não retornou suas ligações, mas depois de dois dias mandou um email dizendo que estava confuso e não sabia o que fazer. Ele, como qualquer homem do século XXI, depois dos 27, estava em dúvida se morava sozinho, se assumiria Amanda como namorada, ou se voltava para a ex-companheira.

Elas chegaram cedo à cidadezinha habitada por imigrantes ingleses e índios no século XIX. Desceram as ladeiras estreitas e sinuosas sob um sol tímido de primavera para chegar a vila que mais parecia o cenário de novelas de época da Globo.

Lá, não encontraram muita coisa interessante.Casas de madeira padronizadas e pintadas de marrom escuro, e cães de estimação como se fossem guardas. Mas Amanda,mesmo distraída como se encontra, conseguiu ver uma coisa boa naquilo tudo.

Era o rapaz de cabelos presos e longos- provavelmente um paranapiacabense que deveria ter uns 24 anos- com uma tatuagem do símbolo de infinito em um dos antebraços, camisa da seleção italiana, bermuda e chinelo. Seus olhos- fechadinhos no canto- pareciam com aqueles do modelo do clip Precious Illusions, da cantora canadense Alanis Morissette.







Fonte: http://www.fanpop.com/spots/alanis-morissette/images/14974265/title/precious-illusions-screencap




Ele conversava com a dona Francisca, senhora dona de uma casa de artesanato que levava seu nome, sobre o movimento da cidade naquele feriado de 15 de novembro.
O nativo de Paranapiacaba- o qual as três garotas o apelidaram de “neto de Francisca”, notou o olhar de Amanda que, há alguns minutos, reparava a beleza exótica (uma mistura de caiçara com roqueiro) do rapaz.

A aproximação dele foi certeira: falou com as três moças, perguntou se era a primeira vez que elas estavam ali, e elogiou a cidade em que mora. Porém, o que o deixava inebriado eram os olhos castanho-claros,a pele rosada, o sorriso com gloss, e o jeito dócil, delicado e romântico da jovem se expressar.

Enquanto isso, Amanda e Luan se conheciam. Falavam sobre a natureza, a cidade histórica e afinidades que foram descobrindo ao experimentar as “químicas” dos respectivos corpos.

Foram momentos de pele. Algo que possa existir entre atração física , mas que não chega a ser paixão. Amor, muito menos. Tão menos que Luan, como um moço leviano e despreocupado que era, passava a sensação de que era um homem que não criava raízes. É independente, mora sozinho, trabalha na ferrovia perto de casa, se apaixona, mas não cria laços fortes.

Amanda topou corresponder a uma aventura de um feriado em novembro que, por mais que não fosse no dia de finados, morreria ali mesmo. O que a coordenadora de uma escola de idiomas queria, era esquecer por algumas horas que poderia ser trocada por Raul como trocar de roupa, ou esquecida como sapatos velhos de camurça no verão- os quais ficam no closet, à espera de uma ocasião especial.