terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Débora e seus balões

Inflou-se. Como o balão mais bonito de um campeonato de balonismo, sua alma encheu-se de expectativas e voou longe à procura das terras do coração daquele rapaz.Gostaria de ter a visão atmosférica do coração de Renan, que para ela ainda era um lugar inóspito.


Conheceram-se num sábado de verão à caminho de uma atividade altruísta. Levavam roupas, calçados e donativos ao pobres de condição social e ricos de espírito. Débora e Renan tinham em comum o amor ao próximo e tentavam descobrir se existia amor em comum.

Desde que o conheceu, foi paixão a primeira vista- daquelas que dão friozinho na barriga e tudo. Débora não sabia onde colocava as mãos. Se gesticularia demais para parecer descontraída, ou se ficar na dela seria a solução para que ele começasse o bom cortejo.

Por dentro, Débora tentava controlar o vulcão de sensações que criara por Renan. Foi para casa pensado no rapaz esguio do sorriso composto. Renan tinha os dentes tão alinhadinhos feito os famosos chicletes da caixinha.Renan falava bem. Seus 33 anos bem vividos se refletiam na firmeza, espontaneidade e gentileza.

Pagou picolés para Débora à caminho do sítio que levariam as doações. Pode ser que isso tenha empolgado ainda mais a moça que chegava na casa dos 30,mas que ainda carregava uma postura sentimental de uma garota de colegial. Tiveram uma conversa espontânea, falaram de viagens, pobreza, religião. Menos de ex- amores.





Ela era da geração das mulheres de atitudes, que sacam rápido o interesse e não perdem tempo para convidá-los para uma conversa agradável. Combinaram de se encontrar em shoppings, parques e igrejas. Ele como sempre disposto, não recusou nenhum convite. Ela, como sempre, mais empolgada do que nunca.

Como toda mulher apavoradamente apaixonada, Débora deixou que Renan tomasse conta dos seus pensamentos. Esperava ansiosa as datas dos encontros como criança esperando guloseima depois do almoço.

Mergulhada nessa esfera apaixonante ainda continuava a encher seus balões com afeto e perseverança. Fez ser lida subjetivamente por Renan, à espera que ele correspondesse na mesma medida.

Em doses simples de afeto e atenção, Renan dava a entender que ela o atraía. Mãos nos cabelos longos e adjetivos carinhosos ao pé do ouvido dela foram estopim para dar forma à paixão que a moça do corpo escultural criou.



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Débora dessa vez sentia que fazia parte de um romance.Só não contava com os ventos contrários, os mais comuns na competição em busca do espaço no coração de alguém.

Um dia Renan sumiu. Não ligou nem mandou mensagens se desculpando. Não soube por que ele perdeu o interesse. Débora já na maturidade, ainda convivia com as consequências do desencanto. Pensou que tivesse aprendido.

Quanto aos balões, Débora não colocou GPS. Não pôde rastreá-los para saber onde irão pousar. Também não quis mais apostar. Aprendeu a se divertir em vê-los no céu. É mais legal assisti-los pairando na esfera dos sentimentos alheios.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Se toca, meu amor!


quando a gente gosta, percebe-se

Procuro pensar que as relações mais sublimes e deliciosas acontecem no tête à tête. Tanto amizades de infâncias que se prolongam por décadas como os namoros que acostumamos a começar depois de um tempo de conversa.

Não tem nada melhor do que conhecer alguém pessoalmente. A vida nos propõe oportunidades dessas a todo momento. Basta estar atento a todas as possibilidades. Até aquelas que aparentemente não são tão excitantes assim, como levar um sobrinho no parque ou a avó na consulta médica de rotina.

O destino, que está acima das nossas percepções, muitas vezes nos reserva alguns bônus para que o coração ,quando sabe ouvir, leva para casa boas promoções em forma de sentimento. É como se fossem liquidações relâmpago em tempos de inflação de relacionamento.

Pessoas super interessantes e atraentes aparecem de relance em nossas vidas.  E todos estamos à venda no mercado das relações. E ultimamente, atrair e ser atraído é questão de tino, postura, olho aberto. Quem conquista mais rápido é porque geralmente entende a sintonia de atração quando deixa rolar uma boa conversa que, nem sempre no primeiro encontro, termina em beijo.

Desse ponto então começam os encontros que passam de casuais para planejados. As vontades mútuas crescem dentro de nós de forma que o outro toma nossa mente e nosso discurso. E quando isso acontece é paixão na certa. Muitos acham isso ótimo.

Como se tivessem chegado a uma terra frutífera que faziam ideia por muito tempo, mas da qual não tinham a autorização. Este espaço, na maioria das vezes, é o coração de quem a gente gosta. Enquanto vivemos a reciprocidade do afeto, tudo torna-se mais simples, leve, absolto.
 
 

Preocupo-me em falar dos que rascunham, estudam e projetam o amor mútuo a partir de  poucos gestos agradáveis e carinhosos do outro. Ivan Martins, escritor sobre relacionamentos, destaca que esse tipo de atitude não passa de confusão mental que, segundo ele, é cometida em larga escala pelas mulheres.

Muitas, depois de receber olhares e frases abarrotadas de adjetivos muitas vezes canalhas, decidem por liberar de vez a sentimentalidade. A princípio, ilusório. Por fim um erro do auto-engano.

Uma amiga me contou que só sacou que o cara que ela estava perdidamente apaixonada e amando platonicamente não estava a fim dela, depois de uma cantiga que um amigo em comum inventou. Dizia  que o moço que ela gostava não iria viajar se a Paula, amiga dela, também não fosse.

Pronto. Demorou mas ela caiu dos penhascos das emoções que criou. Foram mais de oito meses à espera da resposta deste ex para ver se depois da pausa que ele pediu, eles voltariam a namorar.

Triste engano. Minha amiga, nessa época ao 18, chorou amargamente e ainda foi pedir satisfações tardias. Doeu mais ainda. Mas foi útil porque serviu de lição para conquistar o atual marido. Ela deixou perceber a espontaneidade dos interesses e dessa vez, não pensou duas vezes.

As relações são garantidas por sinais e ações que recebemos. E eles quando gostam mesmo, não demoram para responder. Isso rola porque vem de dentro, sem niguém apontar, dar indícios ou simular. O amor, no começo e no fim, é quem encontra as coisas.