sábado, 8 de outubro de 2011

Meu pai te liga mais tarde

Você, ele, e a filha da sua idade






Numa dessas quintas-feiras à noite, depois das reuniões estressantes e do congresso do sindicato de uma certa categoria despreocupada em formar educadores de trânsito conscientes, lembrei de ligar para quem faz a minha vida um pouco mais doce.


Queria ter alguém para descarregar e opinar, delicadamente, sobre a enxurrada de excessos de formalidades que vão me atingir, logo logo, como o último tsunami que marcou o Japão em março. O meu está previsto para dezembro. Mas até lá é preciso compartilhar tudo isso com alguém. E este alguém, é ele.


Como disse Ivan Martins na coluna dele esta semana, é necessário ter alguém para quem ligar quando estamos aflitos, tristes ou perdidos. É numa dessas que descobrimos se a pessoa com quem estamos não quer só a sua pele e algo mais.


Então, desesperadamente, liguei. A garota de 20 anos, morena clara e olhos verdes de fazer qualquer marmanjo fibrilar de tesão, a filha do namorado, atende e diz que ele vai me ligar mais tarde.


Não muito diferente como das outras vezes, entendi. Mas desta, refleti sobre o que ouço desde que resolvi dizer para todo mundo que estou com um cara 15 anos mais velho que eu e o melhor, tem aparência de um garoto de 18.


O que eu estava precisando mesmo naquela noite era dos conselhos em voz grossa, que só ele poderia me dar. E deu. Dizia, ora com a maior calma, ora tão sucinto e objetivo como um capricorniano, que tudo aquilo ia passar e que a situação ia me fazer amadurecer de alguma forma.


Felizmente, para o bem da confirmação da consciência, o gosto ruim vem de todos os lados. A começar, de dentro de casa mesmo. Dizer que você pode curtir sem medo, mas que a longo prazo virá uma carga enorme sobre seus projetos particulares e que poderá te prejudicar.


Daí, é você mesma quem decide se reflete sobre o fatídico “Eu sabia que isso ia acontecer”, frase da sua mãe que te ama, mas que não te deixa tomar decisões pontuais sem antes ferver suas emoções num caldeirão de interrogatórios.


Sem contar os exemplos de relacionamentos de parentes, tios de amigos e vizinho da sogra. Todos, sem exceção, terão uma sugestão arrebatadora. Inclusive aquela de ‘cai fora antes que engravide’, se individe, e que fique com ciúmes da filha dele que é tão bonita e inteligente quanto você.


Delicioso é ter a presença de alguém mais maduro e ainda não aparentar a idade que tem. O desafio é aceitar que, por incontáveis situações de meras razões indiscutíveis, você não será a prioridade. E isso não vai acontecer porque não é importante, mas por que teve alguém que já está lá há 20 anos e que não vai deixar de ser a filha, nem por uma discussão feia sequer sobre a toalha molhada em cima da cama.


Difícil é, naturalmente, ter que dividi-lo. Cabe a mim, que chegou na vida de Renan 22 anos depois, depois da copa de 2010, do centenário do Corinthians (time que ele torce), do primeiro dia de escola da filha, da primeira nota vermelha e do primeiro dente de leite, conviver com o percalço de ser tão especial, mas depois dela.

3 comentários:

Loli Bittencourt disse...

Você como sempre consegue encaixar perfeitamente cada palavra para tornar os textos verdadeiramente reais!!! Sou uma prima babona pela como você escreve! Ótiiima crônica Iind!!
Nunca vou cansar de te dar parabens!
Saudades (L)!
Loli Bittencourt.

Cleber - Has Tela Vista disse...

Não sei porque senti algo bem autoral ai...Está bem escrito e ...li até o final e olha que isso é raro...rsrs bom texto

Adriana Otero disse...

Apesar de td, pode se considerar uma pessoa de sorte. Estou passando um perrengue, ele nem tem filha. Encontrar alguém que tena paciência para ouvir é dar retorno é tudo que uma mulher quer. Do resto (pra vc, para ele não rsrsr)... aprende a conviver.

Bjs